Resenha
Na continuação da série Cool Memories, que já se convencionou tratar como sua autobiografia, o renomado sociólogo francês expõe, numa prosa crua, entrecortada e iconoclasta, sua visão do que resta a ver no mundo. Telegramas de um mundo onde tantas coisas se decompõem, e onde outras recobram um inesperado vigor.
"Consegui apagar todas as marcas, todas as possíveis conseqüências deste livro? Consegui que nada se possa fazer com ele, anulei qualquer veleidade de atribuir-lhe um sentido? Cheguei a esta continuidade do Nada? Nesse caso, fui bem-sucedido, fiz do livro o que o sistema fez da realidade - isto é, que não se sabe mais o que fazer com ela, muito menos como livrar-se dela."
Baudrillard nos surpreendeu algumas vezes com sua impertinente lucidez, e esses fragmentos incorporam material inusitado também. Partindo da posição do intelectual engajado clássico, hoje se considera mais escritor do que sociólogo; personifica mais o viajante e franco-atirador apreciador de um texto atuante e bem-cuidado do que o analista da sociedade de consumo. Vai longe o Baudrillard de O sistema dos objetos e Esquecer Foucault, bem-vindo o Baudrillard poeta do mundo. Em Cool Memories I e II ele já nos tinha dado o prazer de seus aforismos sagazes e cortantes, testemunhos de um mundo envolvido numa certa desconstrução poética, um agudo pessimismo velado, um ceticismo impiedoso acompanhado de uma nem sempre suave ironia. No presente volume, o globe-trotter Baudrillard sai da nevasca de Montreal para aterrissar nos corpos de Copacabana, discorre sobre a nulidade da Bienal de Veneza, lamenta nossa incapacidade de controlar o tempo e principalmente ataca as imbecilidades reinantes no cotidiano, mas também no mundo político e cultural.
Mas é nos belos trechos onde aborda o ato de escrever que Baudrillard se expõe a um irresistível semi-harakiri público: "haveria muito a dizer sobre a prostituição das palavras, o esgotamento textual da língua...". E mais: "na escrita, é como no resto: é preciso atirar mais rapidamente que a própria sombra... ato reflexo que terminou antes de ter começado". Ou ainda: "a arte foi a transfiguração poética do real. A filosofia foi a transfiguração poética do conceito. O que é preciso transfigurar poeticamente daqui em diante é o desaparecimento disso tudo". Mas podemos também pegar Baudrillard no contrapé - um deslize? - pois parece acreditar em alguma coisa, sim: "Onde estão os cantos de Hölderlin...? (...) Os Deuses foram expulsos. Seu espectro vaga nos desertos da pós-modernidade." Cava-se a descrença, encontra-se Hölderlin! Um bom (re)começo para quem dizia recentemente ao editor, numa velha mesa de botequim em Higienópolis, São Paulo: "Tudo isso, todas essas páginas escritas, isso não tem a mínima importância."
Jean Baudrillard nasceu em Reims, na França, em 1929. Professor da Universidade de Nanterre, teve participação ativa nos acontecimentos de maio de 68, ano que marcou também o lançamento de O Sistema dos Objetos (Ed. Perspectiva), obra que o tornou conhecido como sociólogo dedicado aos estudos das relações entre a produção de bens materiais e o fantasma do consumo.
Em 1977 se envolveu numa grande polêmica nos meios acadêmicos franceses com o livro Esquecer Foucault (Ed. Rocco). Daí por diante, Baudrillard se distancia mais dos padrões estabelecidos para tornar-se um pensador independente, um formulador de conceitos que viaja pelo mundo apagando definitivamente os limites entre a criação e a crítica.
Tradução de Rosângela V. Tibúrcio
168 páginas, 14 x 21cm
Áreas de interesse: Crônica, Ensaio livre de sociologia, antropologia, filosofia, narrativa francesa.